quarta-feira, junho 27, 2007

estar sempre presente


o conto antigo da Gata Borralheira,

o João Ratão e o Barba Azul e os 40 Ladrões,

e depois o Catecismo e a história de Cristo

e depois todos os poetas e filósofos;

e a lenha ardia na lareira quando se contavam contos,

o sol havia lá fora em dias de destino,

e por cima da leitura dos poetas as árvores e as terras...

só hoje vejo o que é que aconteceu na verdade.

que a lenha ardida, exactamente porque ardeu,

que o sol dos dias destino, porque já não há,

que as árvores e as terras (para além das páginas dos poetas)...-

que disto tudo só fica o que nunca foi:

porque a recompensa de não existir é estar sempre presente.


Alberto Caeiro, Poesia, Assírio & Alvim

(imagem: ilustrações de Julie Morstad)

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