estar sempre presente
o conto antigo da Gata Borralheira,
o João Ratão e o Barba Azul e os 40 Ladrões,
e depois o Catecismo e a história de Cristo
e depois todos os poetas e filósofos;
e a lenha ardia na lareira quando se contavam contos,
o sol havia lá fora em dias de destino,
e por cima da leitura dos poetas as árvores e as terras...
só hoje vejo o que é que aconteceu na verdade.
que a lenha ardida, exactamente porque ardeu,
que o sol dos dias destino, porque já não há,
que as árvores e as terras (para além das páginas dos poetas)...-
que disto tudo só fica o que nunca foi:
porque a recompensa de não existir é estar sempre presente.
Alberto Caeiro, Poesia, Assírio & Alvim
(imagem: ilustrações de Julie Morstad)

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