segunda-feira, setembro 17, 2007

"Tu disseste"


Tu disseste "quero saborear o infinito"

Eu disse "a frescura das maçãs matinais revela-nos segredos insondáveis"

Tu disseste "sentir a aragem que balança os dependurados"

Eu disse "é o medo que nos vem acariciar"

Tu disseste " eu também já tive medo. muito medo. recusava-me a abrir a janela, a tranpôs o limiar da porta"

Eu disse "acabamos a gostar do medo, do arrepio que nos suspende a fala"

Tu disseste "um dia fiquei sem nada. um mundo inteiro por descobrir"

Eu disse "..."


Eu disse "o que é que isso interessa?"

Tu disseste "...nada"


Tu disseste "agora procuro o desígnio da vida. às vezes penso encontrá-lo num bater de asas, num murmúrio trazido pelo vento, no piscar de um néon. escrevo páginas e páginas a tentar formalizá-lo. depois queimo tudo e prossigo a minha busca"

Eu disse "eu não faço nada. fico horas a olhar para uma mancha na parede"

Tu disseste "e nunca sentiste a mancha a alastrar, as suas formas num palpitar quase imperceptível?"

Eu disse "não. a mancha continua no mesmo sítio, eu continuo a olhar para ela e não se passa nada"

Tu disseste "e no entanto a mancha alastra e toma conta de ti. liberta-te do corpo. tu é que não vês"

Eu disse " o que é que isso interessa?"

Tu disseste "... nada"


( letra: Mão Morta; imagem: huene diveres)

1 comentário:

Rita Pereira disse...

Linda letra dos Mão Morta, bonita foto.

Beijo amiga, põe a melancolia de lado. Gosto muito mais de te ver a sorrir :)