voos e quedas
Num tempo aparentemente irreal, tirado de uma memória que não a minha, vivia uma criança num denso subúrbio da capital. Juntamente com os outros meninos do bairro, brincava na rua, ainda livre dos medos, das inseguranças, dos perigos.Os meninos eram mais velhos e as brincadeiras despertavam sempre o olhar da criança, que os observava empoleirada na cadeira junto à janela do rés-do-chão. Naquele dia, eles saltavam por cima da enorme escadaria paralela ao prédio... voavam, assim parecia à criança, que com a coragem inconsciente dos quatro anos decidiu que também era capaz da proeza. Assim, apesar das vozes contrárias e protectoras dos meninos mais velhos, a criança tomou balanço, correu e.... saltou.
Voava! Pelo menos durante os três dos cinco degraus da escadaria, no quarto foi abatida e caiu. A chorar, com o joelho aberto e ensaguentado, lá foi para casa, com um disfarçado orgulho.
(imagem de Edward Gorey)
1 comentário:
Tenho saudades dessas quedas...
Black nº1 kiss
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