DA RECUSA (STILLS)
bonecas, santos têm tempo, e a espera nem é áspera, só longe. tantos anos, tornou-se automático negligenciar o incômodo daquela vizinhança, não seria deles o dolo, sempre com sóbria discrição. agora quase desarmadas, elas que tanto se policiaram pela porcelana casta do menor rubor (afinal, eram homens aqueles, e tão próximos). se Kierkegaard ou uma boneca alcançam salvação pelo absurdo, ignora-se - mas, com perícia, elas suportam a imobilidade, dias em massa sem inaugurar novas dobras no cetim ou falso veludo, olhos no horizonte que divisa teto e parede.
deles, relutância ante a imediação da beleza: fios louros de nylon fugindo do chapéu, bochechas sem músculos. o que são, apenas santos de residência, na mesma prateleira, sangue-de-pouca-tinta no gesso cariado, na madeira de talhe bronco. um São Jorge rival, em moldura fosco dourada (lança, guerra, suor), há muito que sumiu da parede inversa, e fez-se vão o ciúme dos romances de cavalaria, de eventuais enredos por elas nutridos. bonecas e santos têm tempo. unindo em ausência, o fio que se estica, até quase arrebentar.
Diego Vinhas, in Antologia de Poesia Brasileira do Início do Terceiro Milénio, Exodus
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