segunda-feira, dezembro 04, 2006

Sensações

Se eu pudesse trincar a terra toda
e sentir-lhe um paladar,
seria mais feliz um momento...
mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol
e a chuva, quando falta muito, pede-se
por isso tomo a infelicidade com a felicidade
naturalmente, como quem não estranha
que haja montanhas e planícies
e que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
na felicidade ou na infelicidade,
sentir como quem olha,
pensar como quem anda,
e quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
e que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja.

poemas de Alberto Caeiro, Colecção de poesia. Edição Ática

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