quinta-feira, julho 15, 2010

Exercício 3

Quando era pequena, sentava-me na cozinha, ao pé da minha bisavó Paula, enquanto ela fazia o almoço. Eu queria sempre ajudar, com o passe-vite cor-de-rosa, passava a batata, depois juntava-lhe a manteiga, o leite, o sal, a pimenta e a noz moscada e mexia muito bem...
«Já mexeste?»Perguntava a minha avó antevendo com um sorriso a resposta.
«Já, vó!» Respondia eu, ainda a lamber os dedos e a taça.
Lá dentro, depois de atravessar o longo corredor, ficava a sala de costura e a sala das provas, onde as minhas tias recebiam as senhoras que lhes encomendavam vestidos, casacos e blusas e as torturavam com as mãos geladas, da má circulação, e com os alfinetes, que marcavam o tamanho da bainha.
«Ana Maria, anda cá cumprimentar uma senhora!»
Lá ia eu, educada e bem mandada, contudo secretamente contra-feita, beijar as faces das senhoras que exalavam um perfume enjoativo e adocicado.
Na Primavera, era altura das grandes limpezas: as roupas eram retiradas das gavetas das cómodas e dos guarda-fatos; mudavam-se os papéis que forravam os interiores e juntava-se naftalina, disfarçada com o aroma da alfazema, em saquinhos de pano ou em raminhos.
Agora já não sou pequena, mas continuo a gostar de puré, como a minha bisavó fazia, e aprendi a apreciar outros paladares e condimentos que ela desconhecia. O aroma dos oregãos na melhor tosta do mundo e o sabor do caril de gambas do meu pai.

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